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Brasília,

Na última década, essa população melhorou de renda e representou 75% dos integrantes que entraram no segmento que mais cresce no país

Vera Batista

Paulo Henrique Lobato

Carolina Mansur

Publicação: 01/01/2013 06:00 Atualização: 01/01/2013 08:03

De cada 100 pessoas que entraram na classe C nos últimos 10 anos, 75 são negras e 25 brancas, segundo estudo da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e do Instituto Data Popular. Juntos, esses cidadãos movimentaram

R$ 760 bilhões neste ano. Pelos cálculos da SAE, o indivíduo que pertence à classe C, a nova classe média, tem renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019. Acima desse maior valor, a pessoa já é enquadrada na classe alta. Abaixo de R$ 291, por sua vez, está na baixa. Já a Fundação Getulio Vargas (FGV) leva em conta outro quesito: a renda familiar. Nesse caso, as famílias da classe C recebem de R$ 1.734 a R$ 7.475.

Seja qual for a tabela, não há dúvidas de que a renda do brasileiro cresceu nos últimos anos. O aumento dos salários ocorre mesmo com a desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB), que subiu 2,7% em 2011 e 1% em 2012. Na Grande BH, por exemplo, o rendimento real médio dos ocupados teve alta de 5,1% entre outubro e setembro, atingindo R$ 1.530, segundo o último balanço da Fundação João Pinheiro (FJP) e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) – a última edição foi divulgada às vésperas do Natal.

O jovem Alexandre Rodrigo da Silva, de 30 anos, comemora o aumento da renda do brasileiro. Sua vida profissional deu um salto em 2012. Mudou para muito melhor. Nos últimos 12 meses, seu salário subiu 40%, o que lhe permitiu comprar uma moto zero quilômetro, orçada em R$ 12 mil, e frequentar um curso de inglês. “Era vendedor e agora sou auxiliar de escritório”, comemora o rapaz, que planeja engordar o contracheque em 2013. Para isso, faz questão de ressaltar: vai apostar nos estudos. “Minha meta é ser aprovado numa faculdade de comércio exterior. Faço o curso de língua estrangeira em razão desse objetivo, ainda mais que trabalho em uma empresa do setor”, justifica.

Se tudo continuar dando certo em seu emprego, continua ele, seu desejo é marcar a data do casamento até dezembro. “Já estou noivo”, faz questão de dizer o auxiliar de escritório, que mora no Bairro Tijuca, na Região da Pampulha. Não tão distante dali, no Bairro Aparecida, Joaquim Antônio dos Santos, de 63, deixou o serviço de carroceiro para se tornar empreendedor. Abriu uma revendedora de bateria para carros no início de 2012. “De R$ 1 mil, passei a tirar R$ 2,5 mil”, conta o empresário todo orgulhoso. Joaquim faz questão de dizer que tudo na vida é planejamento: “Invisto boa parte do que consigo na própria loja”.

Muitas vezes, a pessoa melhora de vida em razão da aposentadoria. Foi assim com o baiano Manoel Veríssimo de Almeida, de 72, que nasceu em Caravelas e chegou a Belo Horizonte há 16 anos. Ele deu duro na construção civil e varrendo ruas como gari. “Daí me aposentei com um salário mínimo. Como não consigo ficar parado, arrumei este emprego”, conta Manoel, que ganha a vida vendendo gelados caldos de cana ao lado do viaduto São Francisco, no Anel Rodoviário. “Sou empregado. Consigo mais um salário mínimo”, revela.

Dona do próprio destino, a jovem Núbia Moura Lino, de 19, começou a trabalhar com carteira assinada aos 16. Já foi atendente em uma rede de fast food, recepcionista em clínica médica, operadora de telemarketing e hoje trabalha como caixa em uma loja de roupa popular, no Centro de Belo Horizonte. Mas os planos fazem Núbia sonhar com um futuro profissional distante dos caixas da loja onde trabalha há apenas dois meses. Isso porque ela escolheu o curso superior de gestão de recursos humanos: deve voltar para sala de aula ainda este ano e já espera poder atuar na área.

A intenção é clara: ter uma vida mais tranquila que a de seus pais. “Meu pai juntou dinheiro por 10 anos para comprar um carro à vista”, lembra. “Hoje eles têm carro e casa, mas tudo conquistado com muita dificuldade”, completa Núbia, que é a filha mais velha entre três irmãos, e com o salário de R$ 800 ajuda nas despesas da casa. Para a caixa, que está satisfeita no novo emprego, voltar a estudar pode abrir as portas na rede na qual trabalha, além de facilitar a sua ascensão na empresa. “Como já estou trabalhando aqui, acho que eu posso crescer profissionalmente se estudar. Segundo grau e curso técnico não vale quase nada. É importante estudar”, afirma.

Aprendizado que vem de berço

Nos últimos 10 anos, os que mais se beneficiaram do crescimento econômico do país foram os mais pobres. As pesquisas mostram que a renda dos que estavam na base da pirâmide subiu 6,3% ao ano, enquanto para os 10% mais ricos a alta não passou de 1,4% ao ano. Na avaliação do economista Marcelo Néri, pesquisador da classe média da Fundação Getulio Vargas e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para os que ascenderam, mais importante do que de onde você veio ou está é aonde você quer e vai chegar. “A nova classe média constrói seu futuro em bases sólidas, que sustentam o novo padrão adquirido. Isso é o que chamamos de lado brilhante dos pobres”, ressalta. Os mais novos seguem os passos de seus pais na crença de que o sucesso é alcançado com muito trabalho. Entre os pesquisados, 61% dão valor ao esforço.

A vida nunca foi fácil para o frentista Júlio Souza Lopes, de 26 anos, que cresceu na Associação de Assistência ao Pequeno Jornaleiro, casa de acolhimento a jovens carentes. Mas ele viu nas dificuldades o combustível para chegar aonde chegou. Com salário de R$ 800 mais comissões, ele comprou, há seis anos, a casa própria por R$ 5 mil, no Bairro Palmital, em Santa Luzia. A primeira parcela, de
R$ 2,5 mil, foi paga à vista, viabilizada por um empréstimo. Outras 25 parcelas, de R$ 100, garantiram a quitação do imóvel. Depois disso, ele comprou os móveis. Geladeira, televisão de última geração, fogão de cinco bocas, e, por último, um sofá. “Minha mãe veio da roça, do interior da Bahia, trabalha na varreção de ruas. Tenho cinco irmãos e tudo foi muito difícil para nós. Se eu não tivesse tido foco certamente teria ido por outro caminho”, conta. “Hoje tenho coisas e um conforto que não tinha na infância”, acrescenta.

Além da casa própria, que hoje vale R$ 40 mil, o frentista se orgulha de poder pagar uma escola particular para a filha Miriã, de 5, e aulas de balé. “Já conquistei muitas coisas, mas ainda tenho outros objetivos. Primeiro, quero reformar a minha casa, depois estudar, tirar carteira de motorista e comprar um carro”, planeja Júlio. O sonho dele é seguir a mesma carreira do pai, já falecido. “Quero ser enfermeiro e ir para a faculdade. Assim posso crescer profissionalmente, ganhar melhor e ir conquistando meus sonhos, dar uma vida melhor para a minha família”, diz. “Hoje, independentemente da raça ou classe, quem tem objetivos consegue chegar a qualquer lugar”, comenta o frentista, que lembra o exemplo do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. (VB, PHL e CM)

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